Eraldo Luis Pagani Gasparini
Ah, a Igreja!?!
Falar sobre Igreja é um assunto delicado, que gera fortes emoções, quer de paixão, quer de repulsa, de decepção ou de confiança cega. Uma discussão que gera controvérsias, simpatias, contestações ou conivências.
Mas afinal o que é a Igreja? Ou que vem a ser Igreja?
Na Teologia Sistemática há um ramo especifico que trata sobre ela, esse ramo é a ECLESIOLOGIA ou o Estudo da Igreja.
Quando pegamos a palavra usada no Novo Testamento para definir Igreja temos a palavra grega ekklesia que significa pura e simplesmente reunião ou assembleia. Porém o termo ekklesia passa se tornar a reunião dos chamados, daqueles que foram convocados por Deus para serem parte do Seu povo. No Novo Testamento a palavra ekklesia passa a ser usada para descrever a comunidade dos que creem em Jesus Cristo, tanto em seu sentido universal como em seu sentido local.
E esse aspecto é muito interessante, pois a ideia principal era o ajuntamento das pessoas, era a reunião dos crentes em Cristo Jesus. Não havia placa na frente, não tinha pastor presidente, não tinha diretoria ou estatuto era simplesmente A IGREJA. No começo não havia um edifício para os cristãos se reunirem, eles se reuniam nas casas, como mostra as saudações do Apóstolo Paulo em suas epístolas ( Cl 4:15; I Co 16:19; Ro 16:5; Filemon 1:2). Sempre havia entre os crentes, um irmão que abria as portas de sua casa para a igreja se reunir. Embora em Jerusalém, a liderança fosse exercida pelos apóstolos, nas demais igrejas eram os bispos ou presbíteros que desempenhavam tal função. Na igreja em Antioquia eram os profetas e mestres que desempenhavam tal função (Atos 13:1).
Também não havia um cabeça, um líder máximo, que comandava tudo, isso pode ser observado lendo Atos capítulo 15 sobre o Concílio de Jerusalém, Pedro falou, Barnabé falou, Paulo falou, mas a decisão final foi a dada por Tiago, a qual todos acataram. A Igreja não tinha um poder centralizado como algumas igrejas evangélicas na atualidade apresentam.
Ainda que seja anacrônico falar isso, mas o modelo de administração da Igreja tendia a ser algo misto entre o congregacional e o presbiteriano. Era congregacional no sentido de as igrejas locais serem independentes e presbiteriano por serem regidas por um conselho de bispos (presbíteros). A Igreja de Antioquia não perguntou para a Igreja de Jerusalém se poderia ou não ordenar Barnabé e Paulo como Apóstolos. Ela simplesmente ordenou e enviou.
A vida entre os membros da Igreja era mais comunitária, com eles convivendo juntos, compartilhando o alimento e até partilhando os bens (Atos 2:42; 4:32; I Co 16:1-3). Cuidavam dos desamparados, aqueles que ficaram órfãos e das viúvas (Tiago 1:27). A Igreja era uma comunidade.
É óbvio que a igreja tinha problemas, vários problemas, basta prestar atenção nas epístolas. As tretas que haviam, as discussões, as divisões, os pecados que os apóstolos faziam questão de combater denunciando em seus escritos.
Essa é a Igreja que deveríamos ser. Quando houve a Reforma Protestante, o que os reformadores propunham era voltar aos moldes da Igreja primitiva.
Mas, por várias razões que começaram com o combate das heresias à oficialização pelo Império Romano, fez com que a Igreja se institucionalizasse. E então no final do quarto século ela terá edifícios, uma espécie de estatuto na forma dos credos, uma hierarquia e um poder cada vez mais centralizado, começando com os patriarcados (de Roma, Constantinopla, Antioquia, Jerusalém e Alexandria) e culminando com Roma como sede da Igreja e o Papa como líder supremo da mesma.
E então a Igreja deixou de ser a reunião dos crentes em Cristo, de ser uma comunidade. A Igreja se tornou uma instituição, com sede, governo, representação jurídica e tudo mais. A Igreja se tornou uma entidade autônoma de seus membros.
Embora a Reforma Protestante quisesse restaurar a Igreja, todavia essa restauração esbarrou em questões políticas e muitas dessas igrejas formadas na Reforma se tornaram igrejas nacionais, por exemplo: a Igreja Anglicana se tornou a igreja nacional da Inglaterra; a Luterana se tornou a igreja nacional da Alemanha, Dinamarca e Suécia; a Igreja Presbiteriana da Escócia; a Igreja Reformada Cristã da Holanda; e assim sucessivamente.
Então essas igrejas se tornaram extensão do Estado que representavam e continuaram a ser instituição. Posteriormente surgiram as igrejas independentes como a Batista e a Congregacional, porém para que elas tivessem representatividade, essas igrejas também continuaram instituições, embora livres das amarras estatais.
Nos Estados Unidos da América multiplicou-se o número de igrejas independentes, especialmente no século XIX, que enviaram missionários para outros países. E assim em vários países se formaram vária igrejas evangélicas independentes. Essas igrejas passaram a ser chamadas de “Denominação”. Denominação dentro do Cristianismo Protestante é uma organização religiosa que funciona sob um nome (denominação) e tem estrutura e doutrinas comuns. Então quando várias igrejas se reúnem debaixo de um mesmo nome, estrutura e doutrina, elas se tornam uma denominação, assim temos a denominação Presbiteriana, Batista, Metodista, Congregacional, Assembleia de Deus e assim por diante.
Então depois desse “tour” histórico sobre a Igreja, o que temos hoje?
A gente tem de tudo!!!
Tem igreja que é como um clube; tem igreja que é como uma franquia; igreja que é como um comércio; igreja que é como uma danceteria; igreja que é como uma casa de espetáculo; igreja que é como um centro de auto ajuda; igreja que é como um grupo terapêutico; etc..
Enfim tem igreja para todos os gostos e públicos, demonstrando também que ela se adaptou a realidade contemporânea, onde há vários grupos de humanos formando várias “tribos”. Tribo no sentido hodierno, não tem nada a ver com o significado antigo, tem a ver com grupos informais, geralmente formados por jovens, que compartilham interesses, estilos de vida e identidades, como música, moda, hobbies e ideologias. O termo tribo na atualidade está ligado as grandes cidades, aos centros urbanos e se refere a uma subcultura urbana formada por indivíduos que se reúnem sobre um interesse ou identidade em comum.
E a igreja incorpora isso que há na atualidade. Aquela noção teológica da igreja como corpo de Cristo, como ajuntamento dos que creem em Jesus Cristo, como manifestação de Jesus na Terra está cada dia mais diluída e esquecida.
A sociedade atual é muito fluída, muito dinâmica, muito “mutante”. Está é uma das principais características da sociedade de hoje (século XXI).
E então!? O que devemos fazer??
A resposta que tenho é a minha, particular, de foro íntimo, vinda de minhas reflexões sobre a realidade atual da Igreja. Entendo que devemos ser Igreja dentro da “igreja” (a instituição ou denominação). Temos que achar dentro delas aquelas pessoas ou aquele grupo que permanece fiel ao ensino bíblico, que buscam ser uma comunidade fraterna de irmãos que oram juntos, que compartilham suas vidas uns com os outros, que se ajudam mutuamente.
Embora tenha surgido os “Desigrejados”, que são grupos de pessoas que se reúnem de maneira informal e adenominacional, contudo estes grupos são instáveis e temporários. Eles se formam e se dissolvem muito rapidamente, conforme os membros desses grupos perdem o interesse. No final das contas ou as pessoas saem definitivamente do movimento e tem a sua fé no foro particular ou retornam para alguma denominação evangélica existente.
E fica aqui a minha proposta, a de ser Igreja dentro das igrejas. Muitas igrejas, especialmente as tradicionais não têm um controle rígido de seus membros. E nada os impede de fazer uma reunião de oração em casa, fazer um piquenique com os irmãos, enfim se associar pela fé em comum.
- Esta é a melhor resposta que você tem? – Perguntaria um leitor.
A única que coisa que posso dizer é:
- Não sei! Esta é resposta que eu tenho, talvez haja melhores.
Porém, o que cada um deve ter em mente é que a fé cristã é uma fé comunitária. Não existe a IGREJA EU COMIGO MESMO ou a IGREJA EU E DEUS. Como diz a primeira epístola de João no capítulo 4, eu não posso dizer que amo a Deus e não amar a meu irmão. A ideia de amor presente no Novo Testamento é ilustrada por uma cachoeira: A água vem do alto e ao tocar o chão se esparrama para as laterais. Em outras palavras o amor vem do alto (Deus) sobre nós e este amor deve fluir para as outras pessoas, para os irmãos ao nosso redor. E isto só pode acontecer com as pessoas estando em uma igreja. Creio ser essa a igreja que podemos ser.